Estamos vivendo o que é possível?


Sonhamos com a abundância e damos pouco com medo de perder ou ficar sem.

Muitas vezes, no meu exercício de conversar e participar da vida de muitas pessoas, eu me faço a pergunta acima. Diante da dor, do sofrimento e da confusão em que nos encontramos, e sobre as quais podemos ou não ter responsabilidade e controle, a vida e a morte se confrontam e se encontram invariavelmente.

Quando vivo esses momentos, logo penso em nossa humanidade. Isto é, penso na vulnerabilidade, na fragilidade de sermos quem somos e no poder e na força que surgem daí. Isso mesmo, estou falando do paradoxo humano. Somos seres múltiplos e complexos, portanto, não podemos esperar coerência nem conhecimento profundo de nós mesmos.

Se, por um lado, temos uma caminhada enorme de crescimento pela frente, a quase perder de vista, por outro é necessário reconhecer o que já vivemos aprendemos e conquistamos com o que já somos.

Escrevo tudo isso para chegar a uma resposta sobre a pergunta em relação à nossa vida. Acredito que nós, humanos, estamos em uma das nossas melhores fases no que tange ao poder das conexões, pois nunca fomos tão solidários diante as tragédias locais ou mundiais e nem é preciso listar muitas: mobilizamo-nos nas enchentes de Santa Catarina, nos desabamentos do Rio de Janeiro, no terremoto no Haiti, no tsunami que assolou o Japão…

O poder das conexões também é capaz de promover marcas históricas nos relacionamentos virtuais, afinal, também nunca recebemos tantas pessoas em nossas casas com a Internet e mesmo a TV, pós era digital. Sem contar que nunca nos preocupamos tanto com a qualidade de vida e em como estamos tratando nossa Terra.

Porém, ainda nos envolvemos em coisas mesquinhas e sem importância, como o fato de nos irritarmos com o trânsito, com o mau humor do chefe ou do colega de trabalho, da esposa ou do marido. Irritamo-nos com a maneira como as pessoas se comportam de um modo geral.

A grande incoerência a que me refiro significa que somos capazes de grandes atos de solidariedade e doação às pessoas que moram do outro lado do planeta e também somos incapazes de compreender e perdoar um mau dia das pessoas que convivem conosco. Não é incrível?

Abrimos mão do nosso tempo e conforto para ajudarmos vítimas de tragédias e catástrofes e não conseguimos sorrir para o nosso vizinho que fez barulho à noite e que acordou nossos filhos com um susto em plena madrugada. Somos heroicos fechando portas de salas de aula para protegermos nossos alunos de psicopatas armados e deixamos que o motorista do lado nos tire do equilíbrio com sua má direção e passamos o dia amaldiçoando o indivíduo. Sem contar que já chegamos ao trabalho com o botão da intolerância apertado.

Não temos sustentabilidade interior para lidar com tantos diferentes tipos de personalidade e com as adversidades geradas pelas relações. E, para nós, estamos sempre certos; o modo como o outro age é que precisar ser mudado.

Pergunte-se honestamente
Bem, como eu dizia no começo, somos humanos, e a mesquinharia e a grandeza nos pertencem. No entanto, volto à pergunta: estamos vivendo tudo o que é possível? Se quer uma resposta honesta, ela só poder ser dada por você e é preciso olhar para a sua pequenez e perceber onde ela se encontra. Em que relações você mostra o seu pior? Com quem você é cruel? De quem você mais exige? Quem recebe sua crítica mais feroz? Quem é o depositário do seu lixo mental?

Se você for verdadeiro com si mesmo irá perceber que as pessoas que você mais ama e as com quem mais convive são as mais prejudicadas. É amor que você quer dar e receber e, muitas vezes, essas relações são de cobrança e desrespeito.

As pesquisas de clima de organizacional confirmam a dificuldade dos relacionamentos interpessoais. De um lado, líderes autoritários e agressivos, estressados egocêntricos e invalidadores, em suma, inconscientes do impacto do seu comportamento em relação à sua equipe. Do outro, colaboradores desmotivados, indisciplinados, não comprometidos e até doentes, deprimidos, agem com o piloto do “operacional” ligado. São colegas de trabalho que se destratam, competem e disputam com pouca disposição de colaboração.

É um mundo de paz que almejamos e, na maioria das vezes, fazemos guerra em nossa própria casa. Queremos ser felizes e deixamos de fazer a nossa parte esperando que o outro saiba como nos trazer felicidade.

Sonhamos com a abundância e damos pouco com medo de perder ou ficar sem. Queremos carinho e vamos buscá-lo com agressividade e invasão. Desejamos reconhecimento pelo que somos e invalidamos o outro. OK, somos humanos e nós erramos, mas a reflexão é: diante da dor, do sofrimento e da morte, o que tem importância?

Discutir nossa fragilidade diante da morte e do incontrolável pode nos ajudar a responder se estamos vivendo tudo o que é possível. Pense nisso, enquanto é possível. Há sempre um caminho para a mudança e ele, invariavelmente, começa dentro de você.

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